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Pesquisa Workforce 2026, que ouviu mais de 16 mil profissionais em 11 mercados, mostra que a redução da camada gerencial e o aumento da carga de trabalho colocam a liderança intermediária sob pressão crescente no País Foto: Magnific

63% dos brasileiros dizem que a carga de trabalho cresceu muito em dois anos

A terceira edição da pesquisa global Workforce, conduzida pela Korn Ferry com mais de 16 mil profissionais em 11 mercados, mostra que 63% dos brasileiros sentem que a carga de trabalho cresceu de forma significativa nos últimos dois anos, número acima da média global de 62%, enquanto 47% dizem estar ocupados demais para entregar resultados relevantes e metade afirma que as demandas já ultrapassam sua capacidade de entrega, contra 44% no restante do mundo.

Sem tempo

Segundo o levantamento, novas demandas seguem surgindo sem que as antigas deixem de existir, o que mantém boa parte da força de trabalho ocupada com a clareza sobre as próprias prioridades, mas sem tempo disponível para transformá-las em resultados.

Rotina

Para Rodrigo Araújo, Managing Partner da Korn Ferry Brasil, esse descompasso entre prioridade e tempo disponível é o cerne do problema revelado pela pesquisa. "A clareza sobre as prioridades é importante, mas não é suficiente quando a rotina permanece tomada por demandas que pouco contribuem para os resultados. Se as empresas não eliminarem atividades de baixo valor, as pessoas continuarão sabendo o que é mais importante, mas sem tempo para se dedicar a isso, uma situação que pode, inclusive, comprometer sua motivação", afirma.

Sobrecarga

Essa sobrecarga se conecta diretamente à forma como o trabalho vem sendo redistribuído dentro das empresas. No Brasil, 59% dos profissionais dizem acumular responsabilidades de mais de uma função, número próximo da média global de 61%, e 39% afirmam que a redução da camada gerencial os deixa sem direcionamento claro sobre prioridades.

Substituição por IA

O estudo relaciona esse movimento à reestruturação ou substituição parcial de cargos pela inteligência artificial, que assume parte do trabalho enquanto o restante é redistribuído entre quem permanece, criando a sensação de exercer duas funções ao mesmo tempo. Ainda assim, 58% dizem se sentir recompensados de forma adequada por esse esforço adicional, o que sugere que o desgaste, quando existe, está menos ligado ao reconhecimento financeiro e mais à ausência de prazos e expectativas definidas para esse acúmulo.

Acúmulo de responsabilidades

O acúmulo de responsabilidades recai com peso particular sobre a liderança intermediária. Enquanto 46% dos brasileiros disseram que suas organizações já reduziram o número de gestores, 49%, relatam exaustão com o ritmo das mudanças, e 47% dizem estar ocupados demais para entregar resultados relevantes e apenas 18% afirmam receber dos seus gestores o suporte necessário para exercer a função.

O estudo descreve essa camada de gestão pressionada simultaneamente pela cobrança por resultados extraordinários vindos de cima e pelo desgaste de equipes sobrecarregadas vindo de baixo, absorvendo os dois lados sem receber preparo ou tempo proporcional para exercer a função.

Mudanças necessárias

Para Vinicius De Luca, presidente de Consultoria para a América do Sul da Korn Ferry, esse cenário de sobrecarga gerencial exige uma resposta estratégica das empresas, não apenas paliativa. "Proteger a capacidade gerencial é uma decisão de negócio, porque nenhuma organização sustenta desempenho quando seus líderes não têm tempo e condições para liderar", diz.

Mais tarefas

A inteligência artificial aparece no levantamento como um paradoxo entre expectativa e execução. Para as lideranças, a tecnologia representa a capacidade de sintetizar rapidamente informações que antes consumiam horas de trabalho, mas para quem precisa aplicá-la no dia a dia a experiência é distinta, já que 52% dos profissionais brasileiros dizem que as ferramentas de IA aumentaram o número de tarefas esperadas em suas funções, resultado próximo dos 51% globais.

A diferença aparece quando o assunto é preparo, com 70% dos brasileiros afirmando ter recebido treinamento adequado para utilizar essas ferramentas, quase 20 pontos percentuais acima dos 52% registrados na média global, enquanto 74% relatam ganho real de eficiência ao utilizá-las no trabalho, também abaixo dos 63% globais.

Descompasso

Apesar de inicialmente os números mostrarem um alto nível de preparo, o principal ponto de atenção está no descompasso entre a iniciativa individual e a transformação organizacional: a participação das pessoas na reinvenção de suas próprias funções é mais disseminada do que o redesenho formal dos papéis para a colaboração entre humanos e tecnologia, enquanto processos e estruturas existentes ainda restringem o desempenho.

Desafios de governança

Quando essa transformação acontece de forma mais individual do que estruturada, surgem desafios de governança, como medir o impacto das implementações e garantir a segurança e a proteção dos dados.

O relatório associa parte dessa dinâmica à busca constante por eficiência, que tem orientado boa parte das decisões corporativas no Brasil. Segundo o levantamento, 63% dos profissionais reconhecem que suas organizações priorizam ganhar eficiência acima de explorar novas formas de gerar valor, e 52% dizem ter o próprio desempenho limitado por processos e estruturas já existentes.

Apenas 16% afirmam que a organização é ineficaz em transformar novas ideias em resultados reais, sinal de espaço identificado para inovar, mas pouco explorado na prática, já que apenas metade dos profissionais, 52%, diz que o próprio gestor incentiva a experimentação com novas ideias e tecnologias, cinco pontos abaixo dos 57% da média global.

Propósito do trabalho

A pesquisa identifica ainda um recuo do propósito do trabalho como fator de permanência nas empresas. O ranking de prioridades ao escolher um novo emprego no Brasil mudou de composição entre 2024 e 2026: aprendizado e desenvolvimento e trabalho 100% remoto, que estavam entre os fatores mais citados dois anos atrás, deram lugar a benefícios e progressão de carreira, enquanto salário e remuneração seguiu na liderança, agora com 88% das menções, e o fator "o trabalho em si" caiu para a última posição entre os cinco mais citados, com 61%.

Motivos para ficar no emprego

O mesmo padrão aparece nos motivos para permanecer em um emprego: salário lidera com 92%, seguido por segurança e estabilidade, com 88%, e um critério novo no levantamento deste ano, tratamento justo e consistente, aparece com 86%, o que sinaliza uma relação entre profissionais e empresas cada vez mais pragmática.

"Proteger a capacidade gerencial é uma decisão de negócio, porque nenhuma organização sustenta desempenho quando seus líderes não têm tempo e condições para liderar", diz Vinicius De Luca, presidente de Consultoria para a América do Sul da Korn Ferry.